segunda-feira, 26 de abril de 2010

O anjo da noite


Como muito bem já observou o pesquisador Renato Luis Pucci Jr, a idéia corrente de que o cineasta Walter Hugo Khouri se repetia em seus filmes diz respeito a uma impressão, por vezes superficial, que se tem de uma parte de seu trabalho, voltada aos dramas pessoais do recorrente personagem Marcelo. Como mostra Pucci Jr., há uma parte menos conhecida da cinematografia de Khouri que se afasta dos dramas de seu famoso “alter-ego” e trilha outros caminhos – às vezes notadamente femininos, como se pode perceber em suas duas fitas de horror.

A primeira delas, O ANJO DA NOITE, foi produzida em 1974, pelo paulista Antonio Pólo Galante e os cariocas Gilberto Brocchi e Luis de Miranda Correia, e filmada no Rio de Janeiro, na cidade serrana de Petrópolis. Inspirada numa lenda urbana importada dos EUA, a fita, estrelada por Selma Egrei, contava a história de Ana, jovem estudante contratada como babá de duas crianças que vivem com a família em uma mansão no meio de um imenso vale. Deixada sozinha com o menino e a menina, e também com o vigia (interpretado por Eliezer Gomes), a babá começa a receber insistentes telefonemas mudos durante a noite, entrando numa espiral de pânico com conseqüências trágicas: os telefonemas são dados pelo próprio vigia, que, num acesso de loucura, mata a todos.

Quando apresentado apenas em seu plot resumido, o filme pode parecer bastante simples em sua narrativa. Mas, bem à maneira de Khouri, O ANJO DA NOITE foge às interpretações simples, sugerindo algumas ambigüidades que contribuem para a atmosfera de mistério e de estranhamento. Por exemplo, o interior da casa onde moram as crianças assemelha-se muito ao de um esquife, o que leva a própria Ana a deitar-se no meio da sala, imaginado-se morta, antes dos telefonemas começarem.

Com isso, o poder mortal da casa fica sugerido, num reconhecimento das matrizes góticas, com suas casas malditas. Também o personagem do menino Marcelinho, claramente apaixonado pela babá, é suspeito de fazer as ligações, recusando-se a dormir ao longo de toda a madrugada, e contribuindo para a perturbação de Ana. Com a presença de Marcelinho, a relação entre o assassino a os telefonemas se torna menos segura e, mais uma vez, o ambiente da casa é que parece sugerir a violência.

Entretanto, é na figura do vigia que o filme apresenta sua principal ambigüidade: no começo da história, este é apresentado como um homem extremamente simpático e servil, mas, ao longo da noite, vai se tornando, num processo muito sutil, cada vez mais ousado e monstruoso, o que culmina no surto de violência que sofre ao amanhecer.

Embora este não pareça ser o principal objetivo de Khouri, é possível dar uma interpretação política e racial ao acontecimento narrado, pois o vigia, que é o único personagem negro, parece sentir-se dominado e amedrontado por forças ancestrais que exalam da casa – uma mansão no meio da cidade mais aristocrática do Brasil. Nesse sentido, ao tematizar a latência de conflitos passados concentrados numa casa rica e vazia em meio à natureza selvagem, O ANJO DA NOITE faz uma operação bastante comum nas histórias de horror clássicas, derivadas da ficção gótica: relacionar a monstruosidade ao que é, literalmente, estrangeiro e fisicamente diferente de um ambiente bem delimitado (no caso, o próprio ambiente da casa e de seus moradores).

Evidentemente, não se quer, aqui, tratar o filme de Khouri como parábola ou alegoria da questão racial no Brasil. O que se quer, apenas, é apontar a aparente consciência de seu roteirista/diretor em relação a essas possibilidades simbólicas das histórias de horror – as quais ele conhecia bastante bem, conforme afirmou em diversas entrevistas ao longo de sua vida, como a que reproduzo abaixo:

Khouri - O meu fascínio pelo clima fantástico, pelo irreal e pelo insólito vem desde as minhas leituras de infância e continuou pela adolescência e pela idade adulta, aí já abrangendo todos os domínios da arte literatura, artes plásticas em geral e, naturalmente, cinema. Desde muito cedo me familiarizei e me apaixonei também por autores como Edgar Allan Poe, Henry James, ... Sheridan Le Fanú e também Lovecraft, além de uma infinidade de outros. (In: FERREIRA, FSP, 05/03/1979)

Esse conhecimento declarado de Khouri a respeito das histórias clássicas de horror também pode levar a uma outra suposição – neste caso, relativa à inspiração literária direta para o filme. Afinal, a presença das duas crianças e da babá ameaçadas por empregados numa casa isolada já fôra o mote de um clássico da literatura de horror do século XIX: A Outra Volta do Parafuso, do escritor inglês (citado por Khouri) Henry James (1843-1916), e levado ao cinema por Jack Clayton, em OS INOCENTES (1961).
A presença dos telefonemas misteriosos também nos remete a histórias mais modernas, como o primeiro episódio de AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (1963), IL TELEFONO, de Mario Bava, no qual uma bela mulher (Michele Mercier) começa a receber telefonemas ameaçadores ao longo da noite de pavor.

Por aproveitar-se das normas do gênero de forma tão autoconsciente, e por relacionar-se com obras de horror de diferentes épocas e estilos, O ANJO DA NOITE pode ser considerado um dos filmes mais sofisticados desse gênero já realizados no Brasil. Mesmo assim, não fez sucesso significativo nas bilheterias – ou, pelo menos, nada consta a este respeito.

Em compensação, obteve reconhecimento em pelo menos dois festivais importantes pelos quais passou: o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Sitges, em 1974, na Espanha, que lhe concedeu a Menção Especial do Júri; o II Festival do Cinema Brasileiro de Gramado, em 1975, que o premiou com os “kikitos” de Melhor Direção para Khouri, de Melhor Direção de Fotografia para Antonio Meliande e de Melhor Ator para Eliezer Gomes.

Ficha técnica completa da Cinemateca Brasileira do filme O ANJO DA NOITE (1974), de Walter Hugo Khouri.

24 comentários:

  1. Esse é o tipo de texto ao qual nada há a acrescentar, exceto, talvez, umas trívias. Nesse quesito, lembro que a crítica do Rubens Ewald Filho, num daqueles guias de vídeo que ele publicou ao longo das décadas de 80 e 90, afirmava que o filme é baseado no caso verídico ocorrido com "uma babá brasileiras que trabalhava nos Estados Unidos". Será que o REF sabia que estava contribuindo em perpetuar uma lenda urbana ou ele acreditou mesmo nessa história de babá brasileira?

    Fico espantado quando leio críticos rotulando Khouri de chato e elitista (o próprio Jairo Ferreira parecia detestar o cinema de Khouri). Como está muito bem argumentado neste excelente texto da Laura, era um diretor inteligente, e ainda por cima era capaz de tratar o horror como um gênero digno, rico em possibilidades. Só mesmo no Brasil isso se torna uma desvantagem...

    ResponderExcluir
  2. uau, Primati! obrigada!

    e de repente lembrei de uma coisa: essa não é a mesma lenda urbana que deu origem ao Halloween?

    ResponderExcluir
  3. O REF é ele próprio, uma lenda urbana. Só pode.

    >essa não é a mesma lenda urbana que deu origem ao Halloween

    O "Noite de Pavor" do Peter Collinson, feito na Inglaterra cinco anos antes, já ia por esse caminho também.

    Não acho que "O Anjo da Noite" seja um grande filme, como o "Filhas do Fogo", mas é um exercício de tensão pouco comum no cinema brasileiro.

    ResponderExcluir
  4. Onde se consegue esse filme?

    ResponderExcluir
  5. Bob, este filme é um dos mais difíceis de conseguir. Eu tinha uma cópia em P&B VHS, que hoje está inutilizada. Depois assisti dnuma sessão na Cinemateca, em 2004 ou 2005.

    Leandro, eu não gostei tanto do Anjo da Noite quando assisti pela primeira vez, mas achei que o filme cresceu bastante quando revi.

    ResponderExcluir
  6. Eduardo Aguilar26.4.10

    Obra Prima do cinema nacional! E seu texto está excelente! Em dado momento, o vigia fala sobre como assumiu aquela função, deixando claro uma insatisfação, e mais, me parece mesmo uma crise existencial de alguém obrigado a conter seus instintos. Costumo dizer q. é um filme sobre a loucura e/ou a raiva de qm está subjugado nas relações de poder.

    ResponderExcluir
  7. Laura, o filme que tem ligação mais próxima com essa lenda urbana é o QUANDO UM ESTRANHO CHAMA. Caso você tenha recebido os DVDs do curso de Porto Alegre, gravei os 20 primeiros minutos desse filme, que é quase um curta-metragem, e é um maravilhoso exemplo de narrativa de horror. O filme é muito bom, mas esse começo é insuperável! Ah, e nada a ver com a horrível refilmagem que fizeram (mais uma...).

    ResponderExcluir
  8. P.S.: Bom demais (re)ver o Aguilar por aqui, a pessoa mais khouriana que tive o prazer de conhecer!

    ResponderExcluir
  9. Eduardo Aguilar27.4.10

    Fala Primati!

    Foi realmente uma pena não termos arriscado te chamar para o encontro com o Ailton, afinal de contas, Jundiaí é logo ali... mas vacilo a parte, espero poder revê-lo em breve, e por falar nisso, devo encontrar com a Laura, o Leandro e qm mais aparecer na sessão de "Ninfas Diabólicas" na cinemateca nesse sábado.

    Gde abraço!

    ResponderExcluir
  10. Aguilar, como só vi o filme duas vezes, não lembro muito bem dessa fala, mas teria sido ótimo anotá-la! valeu pela dica! quando eu conseguir uma cópia decente, acrescentarei o diálogo aqui!

    Primati, não recebi o DVD de Porto Alegre... :(

    vamos todos ao Ninfas, então??

    abraços!

    ResponderExcluir
  11. E alguém explica porque os filmes de Khouri não são restaurados e lançados em dvd no Brasil? Problemas de direitos autorais, valor alto da restauração ou completo descaso com o cineasta?

    ResponderExcluir
  12. Ailton, não sei detalhes sobre isso, mas posso afirmar que quando o Paulo Duarte, da Cinemagia, conversou com o Wilfrid, filho do Walter Hugo Khouri, para lançar seus filmes em DVD, ele queria pegar o "filé" da filmografia do diretor. Ou seja, os melhores filmes possível, e assim por diante, ir lançando tudo que fosse interessante (foi o que fizemos no box do Mojica, escolhendo os que consideramos os seis melhores filmes dele). Porém, ao invés de O ANJO DA NOITE ou AS FILHAS DO FOGO (esses dois fui eu que recomendei), acabaram lançando NOITE VAZIA, O CORPO ARDENTE e AS AMOROSAS, todos muito interessantes, mas de uma única fase (inicial) do cineasta. Mas a coisa me parece mais grave; tem outras pessoas interessadas na obra do Khouri que não se coçam para lançá-la. Vamos simplificar a coisa e digamos que tem algém que é o equivalente ao que Allen Klein foi para o Jodorowsky durante décadas.

    ResponderExcluir
  13. Onde é mesmo que vai passar o NINFAS DIABÓLICAS? Preciso me programar aqui, mas estou querendo muito ir assistir...

    ResponderExcluir
  14. No Centro Cultural Banco do Brasil, neste sábado (15h) e domingo (17h).

    Li numa matéria da Folha de São Paulo deste ano, que o filho do Khouri está recuperando todos os filmes do pai, para futuro lançamento. Além disso, parece que há ainda um documentário sobre o cineasta sendo produzido. Todo o trabalho está sendo feito nos antigos estúdios da Vera Cruz

    ResponderExcluir
  15. Vou ter que pesquisar pra saber o que o que esse cara fez com o Jodorowsky, mas se isso significa "deixar de molho" for ever and ever, é mesmo uma pena!

    ResponderExcluir
  16. o caso do Khouri é um dos mais escandalosos, mas a quantidade de filmes brasileiros precisando de restauro e lançamento em DVD é enorme.

    só que há muito pouco investimento nisso. eu até acho que o Estado teria mais responsabilidade em recuperar a memória perdida em décadas de más políticas culturais do que em patrocinar longas da Globo Filmes, mas isso já é outra discussão...

    ResponderExcluir
  17. Aílton, o Allen Klein foi o produtor de "El Topo" e "The Holy Mountain", e por pura pirraça evitou o relanlamento deles por mais de três décadas.

    Klein foi empresário dos Stones, e antes de morrer possuía os direitos das músicas da fase inicial da banda. Depois gerenciou os Beatles, embolsando uma fortuna. A canção "You Never Give me Your Money" foi composta para ele pelo Paul McCartney. O coisa ruim foi sem dúvida, um dos responsáveis pelo fim dos Fab Four.

    A maior parte das vendas do single "Bitter Sweet Symphony" do verve foi para o Klein. Tudo porque a canção trazia a mesma levada de "Last Time" dos Rolling Stones.

    ResponderExcluir
  18. Esse Klein era mesmo um filho da puta, hein!! E valeu por mais uma interessante trivia dos Beatles, Leandro! :) Acho que eu tinha lido sobre ele na excelente matéria sobre os últimos dias dos Beatles que saiu meses atrás na Roliin Stone.

    ResponderExcluir
  19. Poxa, não imaginei que minha comparação do Ser... ops! de um sujeito aí... com o Allen Klein fosse render tanta confusão! Desculpe por isso; e obrigado, Leandro, pela ajuda!

    O final dos Beatles é uma das coisas mais patéticas do universo pop, com quatro ex-amigos destilando um ódio mútuo injustificado. Foi o John Lennon quem insistiu que o Klein fosse o gerente da banda, porque não queria que o sogro do Paul cuidasse do dinheiro da banda. Pura disputa de poder. Foi o Lennon também quem disse para o Klein adquirir os direitos dos filmes do Jodo, depois de ter visto uma sessão dos filmes do chileno doido.

    ResponderExcluir
  20. uau, tou adorando ver as discussões começarem num lugar e terminarem em outro completamente diferente! acho que o Allan Klein foi uma maldição do Brian Epstein para os Beatles, mas não fazia idéia de que ele era o mesmo que depois aprontou para o Jodorovsky...

    ResponderExcluir
  21. Que bom que está gostando da bagunça, Laura! Pouco se fala da participação dos Beatles no cinema, além dos veículos juvenis dos anos 60. John Lennon tentou investir no Jodorowsky; George Harrison produziu os filmes do Monty Python; Ringo fez a horrível comédia de horror SON OF DRACULA, dirigido por Freddie Francis! E Paul, bem, ele era o bonitinho... E estava ocupado demais gravando hit singles durante a década de 70.

    ResponderExcluir
  22. O Paul gravou um tema para 007. hehehe

    ResponderExcluir
  23. Revi trechos de O ANJO DA NOITE e gostei ainda mais do que da primeira vez que vi. Que cena sensacional aquela da Selma Egrei (que eu acho lindíssima, principalmente neste filme) deitando-se no chão, e a câmera explorando o teto da casa, que lembra mesmo um esquife muito sinistro!

    Sobre a questão racial, tem outra cena importante, quando o caseiro está brincando com o menino e acaba derrubando a criança, ficando sobre ele, numa posição dominante. A expressão do caseiro, que fica sério de repente, é como a de alguém que enfim conseguiu subjugar o patrão, o homem branco. É meio que uma expressão de rancor, angústia e ódio contido. É uma baita cena!

    ResponderExcluir
  24. Fan Trailer do filme
    http://www.youtube.com/watch?v=gEm3PPEf5Js

    ResponderExcluir